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Biblioteca Monástica

Biblioteca Monástica: Recuperação de 4 séculos da história do Brasil, e acesso à internet para a população carente
Por: Carlos Eduardo
Em silêncio e quase imperceptível, sua fachada amarela se confunde com as pedras centenárias, que ornam o adro da Basílica de São Sebastião. Qualquer desinformado que ali chegar, terá sua curiosidade desafiada apenas por um aviso colado na antiga porta verde, talhada em madeira nobre – “empurre”. Estas são as impressões iniciais de quem “descobre” a biblioteca do Mosteiro de São Bento, escondida nos fundos do largo que também leva o nome do santo.
Esse relicário de 425 anos foi mantido inacessível à população por 4 séculos, e, “há 5 anos foi aberta ao grande público”, afirma D. Rafael, monge beneditino, trajando um tradicional hábito negro. Homem alto, de gestos e palavras cordiais.
A instituição possui mais de 20 mil documentos, destes, 18.701 mil, estão catalogados, incluindo desde raridades datadas a partir de 1535, séc. XVI, chegando a um acervo com diversos títulos mais recentes, que contam, cronologicamente, a vida do estabelecimento e da cidade que, gradativamente, cresceu a seu redor.
Reinaldo Lopes, responsável pela biblioteca, comenta: “preservar a história do Mosteiro, da cidade do Salvador, da Bahia e do Brasil, é a missão principal deste lugar”. O local é de livre acesso a todos que desejarem conhecê-lo ou queira usufruir de seus serviços, que incluem, além da consulta aos títulos, um setor informatizado, que, de acordo com o bibliotecário, está aberto à comunidade carente: “eles vêm pesquisar, fazer trabalhos escolares, e, principalmente, enviar currículos à procura de emprego”.
OBRAS RARAS – As relíquias estão disponíveis somente para alunos de pós-graduação, doutorado e mestrado, ou estudiosos ligados a algum órgão de pesquisa, munidos de documentos que atestem suas intenções. O empréstimo dos demais livros é permitido apenas aos alunos do colégio e faculdade anexos ao Mosteiro.
“Alguns documentos estão restritos ao ‘claustro’”, diz D. Mauro, usando ‘trajes civis’. O monge prossegue bem humorado: “são atas, documentos referentes à vida monástica, títulos de propriedade, registro da quantidade de escravos que o Mosteiro possuía e testamentos, em especial, o de Catarina Álvares ‘Paraguassú’”, encerra o religioso. Neste item, por sinal, Catarina deixa parte das terras da família ‘Álvares’ (Caramurú) para os beneditinos.


O Centro de Documentação e Pesquisa do Livro Raro, Dr. Norberto Odebrecht, dispõe de um laboratório de restauração e conservação. Inaugurado em novembro de 1996, o anexo ocupa uma área de 90m² e sua estrutura contém modernos equipamentos, que atendem desde documentos do mosteiro até coleções particulares.
“As obras são restauradas página a página, num processo lento e minucioso. Fazemos uma verificação inicial para conferir o estado inicial do documento. Passamos então por uma higienização da peça e, enfim, a restauração”, informa Ghrasy Ribeiro, responsável pelo setor, que continua: “não realizamos modificações no original. Se falta uma letra ou qualquer outro detalhe, é deixado assim. Alterar seria falsificar o documento. O que fazemos aqui é dar uma sobrevida às obras”, conta a restauradora, dizendo ainda que os livros mais recentes, por terem sido confeccionados em papel, tornam a revitalização mais difícil, devido à fragilidade do material. “Os mais antigos eram impressos em ‘trapos’, o que facilita o processo. O material é mais resistente”, conclui a restauradora.
O dinheiro destinado à recuperação e manutenção dos títulos vem do próprio Mosteiro, de patrocinadores externos, de empresários, do estado e anônimos. “Existe na casa, um setor especializado em captar estes recursos”, afirma o bibliotecário Reinaldo.
Segundo o Arquivo de Bibliotecas Públicas da Fundação Pedro Calmon, de janeiro a agosto de 2007, a média diária no estado foi de 3.920 mil visitantes. Sendo que, mensalmente, 10.192 mil pessoas freqüentaram as instituições, num total de 81.538 mil durante esses 8 meses.
Em 2006, a média anual girou em torno de 170.785 mil usuários. O que evidencia o decréscimo referente às visitações. Esses números crescem se comparados aos dos anos anteriores. E segundo as estatísticas, esse abismo tende a se alargar cada vez mais.
BIBLIOTECA MONÁSTICA – A biblioteca do Mosteiro de São Bento recebe, cerca de 30 usuários diariamente, desde os estudantes do complexo educacional integrado até pessoas não ligadas à instituição. “É de extrema importância preservar este patrimônio, para que nossa história não seja apagada”, diz Aline Conceição, 18 anos, aluna do colégio Central.
A estudante desconhecia a existência da biblioteca, mas se mostrou disposta a visitar o que chamou de “um pedaço quase desconhecido da história da Bahia e do Brasil”.
A biblioteca do Mosteiro de São Bento está aberta de segunda a sexta-feira, das 08hs às 17hs, e aos sábados, das 10:30hs às 13:30hs, e fica localizada no largo de São Bento, nº1, Centro.Sites:
www.saobento.org tel: 2106-5214 www.fpc.ba.gov.br tel: 3116-6911

Comments :

1
Paola disse...
on 

II [SONETO DO EPITÁFIO]

Lá quando em mim perder a humanidade
Mais um daqueles, que não fazem falta,
Verbi-gratia — o teólogo, o peralta,
Algum duque, ou marquês, ou conde, ou frade:

Não quero funeral comunidade,
Que engrole "sub-venites" em voz alta;
Pingados gatarrões, gente de malta,
Eu também vos dispenso a caridade:

Mas quando ferrugenta enxada idosa
Sepulcro me cavar em ermo outeiro,
Lavre-me este epitáfio mão piedosa:

"Aqui dorme Bocage, o putanheiro;
Passou vida folgada, e milagrosa;
Comeu, bebeu, fodeu sem ter dinheiro".

BOCAGE BY PAOLA PUBLIO

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