Por Carlos Eduardo Santos
A deficiência não desabilita ninguém a conquistar um emprego digno. Para reforçar essa idéia e torná-la oficial, surgiu há 17 anos a lei 8.213, que prevê cota para portadores de deficiência no mercado de trabalho. Empresas que tenham de 100 a 200 funcionários devem dispor de 2% das vagas para pessoas com qualquer tipo de deficiência. De 201 a 500 colaboradores, 3%. De 501 a 1000, 4%. Acima de 1000, deverão ser contratados cinco indivíduos para cada 100 empregados.
Para Janilton Pereira e Marlete Azevedo, funcionários da Gol Linhas Aéreas, a lei abriu portas e mudou sua realidade.”Tenho agora uma chance que, com certeza, não teria sem a medida”, conta Marlete. “A lei serviu, de certa forma, para mostrar que o deficiente pode realizar as mesmas tarefas que as outras pessoas, apagando aquela visão de que somos incapazes, mudando nossa vida”, diz Janilton orgulhoso.
A lei, de 24 de junho de 1991, além de promover a inclusão contribui aumentando a auto-estima do trabalhador. A empresa que descumpri-la poderá pagar multa que varia entre R$ 1.200 mil e R$ 125 mil. No artigo 93, a lei instrui que, em caso de dispensa, o cargo deve, invariavelmente, ser preenchido por outro trabalhador em iguais condições.
“A medida adotada com as empresas inadimplentes é a autuação, a emissão de auto de infração”, informa Marli Costa Pereira, auditora fiscal do Núcleo de Apoio a Programas Especiais (Nape), do Ministério do Trabalho. “Primeiro, damos um prazo, pois conhecemos as dificuldades das empresas. O prazo legal é de dois a oito dias, mas, como se trata de uma legislação especial, prorrogamos conforme a demanda”, acrescenta.
De acordo com dados obtidos no Nape, as empresas que não cumprem a lei, são encaminhadas ao Ministério Público para formalizar um termo de ajustamento de conduta, por ser um atributo trabalhista mais específico para este caso. Algumas são autuadas, e nesse processo, várias entidades já foram punidas, às vezes, por preferir pagar a multa, já que a lei permite esse procedimento.
A lei impõe a contratação do deficiente a partir de 100 funcionários, o que não significa 100 por estabelecimento, mas, totalizando as filiais (se houver) em todo o Brasil. “Algumas empresas cuja matriz está em outro estado, cumprem a cota na cidade-sede, não é obrigada a cumprir em cada estabelecimento que possui. A entidade tem a liberdade de alocar o deficiente onde quiser”, conclui Marli Pereira.
A lei de cotas é um marco no Brasil, no entanto, transpor a barreira preconceituosa de uma sociedade desigual tem sido uma dura luta de organizações como a Associação Baiana de Deficientes Físicos (Abadef). A Abadef existe desde 2 de setembro de 1980. Conta com mais de três mil associados e fomenta a inclusão do deficiente na sociedade, reduzindo o hiato entre o associado e o mercado.
Abadef possui 4.100 mil associados, somando aposentados, trabalhadores e pessoas que recebem a LOAS (lei orgânica da assistência social). “Temos 600 pessoas encaminhadas apenas pela entidade no projeto de inclusão do portador de deficiência no mercado”, diz Silvanete Brandão, assistente social da entidade e portadora de deficiência física.
“Fazemos uma anamnese social - entrevista prévia para conhecer a realidade de cada pessoa. Com os dados em mãos, traçamos seu perfil e identificamos a capacitação compatível: terminou o 2º grau sem curso de informática? Encaminhamos para esse curso; possui informática? Passamos ao telemarketing”, diz Silvanete.
A Abadef possui parcerias com o Senac (serviço nacional de aprendizagem comercial) e com o Sebrae (serviço brasileiro de apoio às micro e pequenas empresas) para realizar a capacitação. Empresas privadas também disponibilizam recursos para o processo, e, em seguida, absorve estas pessoas, entre elas estão Hotéis Othon, Petrobrás, Hotel Tropical da Bahia, Odebrecht, Hotel Blue Three.
A empresa dentro da cota que não faz a inclusão é multada. Há fiscalização na DRT (delegacia regional do trabalho), e no Ministério Público. A multa varia de acordo com a quantidade de funcionários. A Abadef faz uma visita técnica à empresa para conhecer sua estrutura. Verifica se possui acessibilidade mínima (corrimão, rampa, banheiro especial), para depois encaminhar as pessoas.
“Desenvolvemos o trabalho a partir dos cargos que a empresa disponibiliza. Porque se esperarmos por elas, serão repassados apenas cargos de serviços gerais, o que limita muito a pessoa com deficiência, escondendo-a. Aí dizem ‘olha, estou cumprindo a cota’. Mas, quando chega lá, você não vê. É Só em serviços gerais! Cumprem por obrigação”, desabafa Silvanete.
“Vejo a lei de cotas como um marco histórico. Uma vitória para a pessoa com deficiência, porque, apesar da obrigatoriedade, de termos que brigar no Ministério público com a empresa, que às vezes se coloca contra, continua sendo um ganho. Pois se não existisse a lei, com certeza não teríamos deficientes trabalhando”, sorri esperançosa a aguerrida assistente social.
Lei prevê vagas para deficientes há 18 anos
Dude Santos, quinta-feira, 15 de janeiro de 2009Design de notícias: uma questão holística
Dude Santos, domingo, 30 de novembro de 2008Carlos Eduardo Santos
O artigo de Marielle Sandalovski Santos aponta para os cuidados necessários ao se aplicar as modernas ferramentas tecnológicas no design das notícias. A autora pede cautela quanto ao deslumbramento provocado pelas inúmeras possibilidades que estes novos recursos ofertam, acentuando a necessidade de se adequar o gráfico ao conteúdo textual e não o contrário, pois implicaria em corrupção da concepção prévia.
Quanto ao dilema identidade do veículo versus liberdade criativa, é destacada a importância de um padrão identificável do produto, para que, dentre seus pares ou concorrentes, este possa sobressair-se, sendo de fácil reconhecimento, dispensando algo óbvio como um logotipo.
Existe uma tendência real a diferenciar o veículo dos demais, e isso se torna evidente nos tipos, na diagramação e no uso das cores. Tudo com o propósito de buscar uma “cara” única, ressaltando que é de extrema importância demonstrar a quem a publicação é destinada, o design deve atingir o público-alvo sem abrir mão da criatividade.
Sandalovski destaca que, em determinado momento, a fim de não comprometer a identidade do veículo, o designer precisa – e porque não, em todos os momentos – mediar o caminho percorrido entre a informação e o público. Este ponto é necessário para que se tenha a tão almejada interação entre os produtores e os consumidores da notícia.
O profissional do design precisa, acima de tudo, estar sensível tanto à linha editorial a qual está submetido, quanto à difícil missão de condensar em um curto espaço os anseios dos consumidores. Quando bem sincronizados, estes pontos podem causar efeitos excepcionais. Sem esquecer, no entanto, do compromisso primário de informar.
Segundo a autora, o design deve comunicar a realidade recortada e representada nas páginas de jornais e revistas textualmente. Contudo, isso não significa necessariamente que não haja espaço para ousadias comedidas ou alguns detalhes mais arrojados, contanto que não comprometa a mensagem. O detalhe gráfico deve passar precisamente a mensagem contida no texto sem deixar dúvidas sobre seu significado.
De acordo com Marielle é indispensável ao design de notícias o casamento de ritmo e unidade, que, segundo ela, deterá melhor a atenção do leitor. É citada também a necessidade de se agir com parcimônia quanto ao uso de tipos. O uso demasiado de letras distintas pode impor um tom desagradável de profundo mau gosto à mensagem, comprometendo-a.
A utilização de fotografias e info-textos se tornou indispensável nessa nova era da informação. O leitor tem a necessidade de estar cada vez mais próximo ao fato, e isso leva ao emprego destes recursos, que, desde os antigos clichês, são acessórios amigos da notícia. A prudência, no entanto, é essencial. Assim como uma página com texto de ponta-a-ponta cansa (quando nem sequer atrai) o leitor, um texto apenas imagético pode confundir o consumidor da notícia, quando não explorado completamente. A legenda bem aplicada é um recurso simples e eficaz nesses momentos.
O importante no design não está no excesso de tecnologia aplicada. Sua eficácia consiste, antes, em saber aliar o novo aos conceitos primordiais. Cabe então uma afirmação clichê, mas que encerra em si todo o mistério de um bom trabalho gráfico – o menos às vezes significa mais – basta o design transmitir com precisão aquilo que lhe cabe dizer naquele momento, ser auxiliar da notícia, sem com isso, estar abaixo dela, visto que, são ambos complementares. A necessidade de difundir a mensagem, passar adiante a informação prevalece então. A notícia está no equilíbrio das técnicas.
O Preço de uma verdade (Shattered Glass)Resenha crítica
Dude Santos, domingo, 21 de setembro de 2008“No mundo, o pior é o tédio, único pecado sem perdão!” (Oscar Wilde).
postado por: Carlos Eduardo
Billy Ray é um diretor-roteirista que afirma sentir atração especial por histórias de decepção (www.epipoca.com.br, 2007). Profissional metódico. Acredita que por trás de uma boa história, se esconde um longo trabalho de pesquisa. Ray assina os roteiros de “Quebra de confiança”, 2007(o qual também dirige); “Plano de Vôo”, 2005; “Suspeito Zero”, 2004 e “O Preço de Uma Verdade”, 2003.
Stephen Glass (Hayden Christensen – Star Wars, Ataque dos Clones e A Vingança dos Sith), um jovem redator da revista norte-americana “The New Republic”, consegue rápida notoriedade publicando artigos de temática aparentemente banal, contudo, bem escritos. Glass, no entanto, tem por hábito apresentar histórias fantásticas sem consultar a consistência das informações.
Seus problemas começam quando a revista “Forbes Digital” contesta um artigo seu. A partir daí, o que se vê é o rapaz lutando sem sucesso para provar sua inocência. Billy Ray propõe uma reflexão sobre a “verdade midiática”, direcionando os holofotes para a necessidade de uma análise minuciosa das informações da mídia, pois tropeços dessa ordem abalam a imagem de uma classe inteira.
O filme (pelo menos no que se refere à Glass) é um manual do anti-jornalismo. Uma aula de como não fazer. Ele mostrou-se hábil escritor e péssimo repórter. Fez tudo ao contrário. Inventou fatos e fontes. E, se os possuía, optou por não conferir a veracidade do que tinha em mãos. Deixou-se corromper pela íntima sensação de poder que adquiria sempre que um artigo seu era publicado. A vaidade constitui um risco para profissionais em qualquer atividade. Para o jornalista é um veneno. O pior deles.
A trajetória de Glass suscita indagações que trazem a lembrança de um trecho do evangelho segundo Marcos 8:36, “que lucro teria um homem ao conquistar o mundo inteiro se isso lhe custasse a própria alma?” Embora radical, a citação do evangelista se aplica ao caso. E o “mundo inteiro” não é um exagero.
Hoje, a mídia, erroneamente, é associada à verdade absoluta (a partir do séc. XX, as pessoas trocaram aos poucos a igreja pela televisão, pois esta detém, para elas, “a verdade incontestável”, e exerce igual ou maior influência). O rapaz, portanto, tinha sua fração de mundo. Cabia a ele utilizar este espaço de forma inteligente. A alma do jornalista é o seu nome. Quando decidiu falsear seus textos, optou também por colocar sua credibilidade em xeque. E é claro, seu rei caiu.
É possível que Glass tenha realmente acreditado na “verdade” em seus artigos. Que sua capacidade persuasiva - seu carisma, e a qualidade de sua redação o manteriam incólume (como ocorreu por algum tempo). Mas, o jornalismo não se fundamenta em suposições. Tampouco se alimenta de meias verdades. Menos ainda, de histórias fantásticas sem respaldo.
Cabe neste e em outros casos, o que ensinam e suplicam os teóricos e os professores de comunicação – apurem, filtrem, chequem tudo, até não restar dúvida alguma! Glass não é um caso isolado. Basta procurar um pouco. Não será difícil, infelizmente, encontrar outros. Uma ressalva redundante é necessária: jornalismo trabalha com base em fatos – o resto é literatura.
